Dor na parte inferior do abdômen, sensação de inchaço, gases, diarreia ou prisão de ventre podem parecer problemas completamente diferentes. Mas, em algumas pessoas, esses sintomas podem aparecer juntos.
A síndrome do intestino irritável (SII) é uma condição que afeta o funcionamento do intestino e pode causar dor abdominal, alterações nas evacuações e distensão abdominal. A dor pélvica, por sua vez, pode ter diversas origens — ginecológicas, urinárias, intestinais ou musculares.
Pesquisas brasileiras recentes reforçam que existe uma associação entre a SII e a dor pélvica crônica, especialmente em mulheres. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 na Revista da Associação Médica Brasileira analisou justamente essa relação. (SciELO)
O que é a síndrome do intestino irritável?
A síndrome do intestino irritável é um distúrbio relacionado ao funcionamento do trato gastrointestinal.
Entre os sintomas mais comuns estão:
dor ou desconforto abdominal;
sensação de barriga estufada;
gases;
diarreia;
constipação;
alternância entre diarreia e constipação;
mudanças na frequência ou na aparência das fezes.
A SII não deve ser confundida com doenças inflamatórias intestinais, como doença de Crohn e retocolite ulcerativa. Na síndrome do intestino irritável, não são encontradas necessariamente lesões estruturais que expliquem os sintomas. Isso não significa que a dor seja imaginária ou que a condição seja pouco importante.
E o que é dor pélvica?
A dor pélvica é aquela percebida na região inferior do abdômen e da pelve.
Ela pode ser passageira, como uma cólica menstrual, ou persistente.
Quando a dor permanece ou se repete por um período prolongado, é importante investigar sua origem. A FEBRASGO destaca que a dor pélvica pode estar relacionada a condições ginecológicas, intestinais, urinárias e musculoesqueléticas. (Febrasgo)
Entre as possíveis causas estão:
endometriose;
adenomiose;
miomas;
infecções urinárias;
síndrome da bexiga dolorosa;
constipação;
síndrome do intestino irritável;
alterações musculares;
outras condições ginecológicas ou intestinais.
Por isso, dor pélvica não deve ser automaticamente atribuída ao intestino.
Como o intestino pode estar relacionado à dor pélvica?
O intestino está localizado dentro da região abdominal e pélvica e possui uma intensa comunicação com o sistema nervoso.
Na SII, alterações na sensibilidade visceral e no funcionamento intestinal podem fazer com que estímulos normalmente toleráveis sejam percebidos como desconforto ou dor.
Além disso, distensão abdominal, gases, constipação e alterações nas evacuações podem contribuir para o desconforto na região.
A FEBRASGO também reconhece a síndrome do intestino irritável como uma das possíveis causas não ginecológicas de dor pélvica crônica. (Febrasgo)
A dor pélvica pode ser sintoma do intestino irritável?
Pode.
Uma característica que pode ajudar na avaliação é observar se a dor apresenta relação com a evacuação ou com mudanças na frequência e na aparência das fezes.
Protocolos brasileiros descrevem como características sugestivas de SII a presença de dor ou desconforto associado à evacuação ou acompanhado de mudanças na frequência e na consistência das fezes. (Secretaria de Saúde do Distrito Federal)
Mas isso não significa que qualquer dor pélvica acompanhada de alteração intestinal seja SII.
É justamente por isso que a avaliação profissional é importante.
SII e dor pélvica podem aparecer juntas?
Sim.
Evidências brasileiras apontam uma associação relevante entre as duas condições.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 avaliou estudos sobre SII e dor pélvica crônica e encontrou evidências de associação entre os dois quadros. (SciELO)
Outro estudo brasileiro, publicado em 2026, investigou especificamente a prevalência e fatores relacionados à síndrome do intestino irritável em mulheres com dor pélvica crônica. (SciELO)
Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas podem apresentar sintomas intestinais e pélvicos ao mesmo tempo.
Como diferenciar SII de outras causas?
Essa é uma das partes mais importantes.
A mesma região do corpo pode apresentar dor por motivos completamente diferentes.
Quando o intestino pode estar envolvido
Algumas características podem apontar para participação intestinal:
dor associada à evacuação;
constipação;
diarreia;
gases;
distensão abdominal;
mudança na frequência das evacuações;
alteração na consistência das fezes.
Quando outras causas precisam ser investigadas
Dor relacionada ao ciclo menstrual, dor durante relações sexuais, alterações urinárias ou dor persistente podem indicar a necessidade de investigar outras causas.
A endometriose, por exemplo, está entre as condições que podem provocar dor pélvica e precisa ser diferenciada de outros problemas. (Febrasgo)
E a endometriose?
A relação entre intestino e pelve pode tornar a diferenciação ainda mais importante.
A endometriose pode provocar dor pélvica e também sintomas intestinais em algumas mulheres. Por isso, não é adequado concluir que uma pessoa possui SII apenas porque apresenta dor abdominal, gases ou alterações nas evacuações.
O histórico dos sintomas, sua relação com o ciclo menstrual e outros sinais ajudam o profissional de saúde a direcionar a investigação.
O estresse pode influenciar os sintomas?
O intestino e o sistema nervoso possuem uma comunicação constante, conhecida como eixo cérebro-intestino.
Alterações nessa comunicação podem participar dos mecanismos envolvidos na SII.
Isso não significa que a síndrome seja “apenas emocional”.
A condição envolve mecanismos biológicos e psicossociais, incluindo alterações da motilidade intestinal, sensibilidade visceral, microbiota e comunicação entre cérebro e intestino.
Por isso, fatores emocionais podem influenciar os sintomas sem significar que a dor seja “inventada” ou simplesmente psicológica.
O que pode ajudar no controle dos sintomas?
O tratamento depende da causa identificada e dos sintomas predominantes.
No caso da síndrome do intestino irritável, a abordagem pode envolver mudanças na alimentação, atividade física, sono, manejo do estresse e, quando necessário, medicamentos prescritos por profissional de saúde.
Não existe uma única dieta que funcione para todas as pessoas com SII.
Também não é recomendável eliminar vários grupos alimentares por conta própria.
Quando alterações alimentares são necessárias, o ideal é que sejam planejadas individualmente, preferencialmente com acompanhamento de nutricionista.
Existe uma alimentação específica para SII?
Algumas pessoas percebem que determinados alimentos pioram seus sintomas.
Entretanto, os gatilhos variam bastante.
Uma estratégia alimentar utilizada em alguns casos é a dieta com baixo teor de FODMAPs, mas ela não deve ser transformada em uma dieta permanente por conta própria.
A identificação dos alimentos que realmente provocam sintomas deve considerar a alimentação habitual, os sintomas e as necessidades nutricionais da pessoa.
Quando a dor pélvica merece investigação?
Dor frequente ou persistente merece atenção.
A FEBRASGO reforça que a dor pélvica não deve ser negligenciada, especialmente quando se torna recorrente ou interfere na qualidade de vida. (Febrasgo)
A investigação pode envolver diferentes profissionais e áreas da saúde, dependendo dos sintomas.
Em alguns casos, pode ser necessário avaliar simultaneamente aspectos ginecológicos, gastrointestinais, urinários e musculoesqueléticos.
O tratamento precisa ser multidisciplinar?
Em determinadas situações, sim.
A dor pélvica crônica pode envolver mais de um mecanismo ao mesmo tempo.
Uma revisão publicada na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia destaca a importância de uma avaliação ampla, considerando sistemas gastrointestinal, urinário, ginecológico, musculoesquelético, neurológico e outros. (SciELO)
Isso ajuda a evitar que uma única explicação seja utilizada para todos os sintomas.
O que você não deve fazer?
Um erro comum é tentar diagnosticar a causa da dor apenas pela internet.
Outro é começar dietas extremamente restritivas ou retirar vários alimentos simultaneamente para tentar descobrir o que está causando o problema.
Também não é uma boa ideia utilizar medicamentos ou suplementos por conta própria.
A dor pélvica pode ter diferentes causas e, por isso, o tratamento depende do diagnóstico.
Conclusão
A síndrome do intestino irritável e a dor pélvica podem estar relacionadas, e pesquisas brasileiras recentes reforçam essa associação.
Isso não significa que toda dor pélvica seja causada pelo intestino.
Endometriose, adenomiose, problemas urinários, alterações musculares e outras condições também podem provocar sintomas semelhantes.
Observar a relação entre dor, evacuação, alimentação, ciclo menstrual e outros sintomas pode ajudar o profissional de saúde durante a investigação.
Mais importante do que tentar descobrir sozinho o diagnóstico é entender que dor persistente merece avaliação adequada.
Referências qualificadas
1. Revista da Associação Médica Brasileira — Síndrome do intestino irritável e dor pélvica crônica: revisão sistemática e meta-análise, 2025
https://www.scielo.br/j/ramb/a/GfWk9HNQVy6rsvvyLvWDWqm/
2. Clinical Science — Prevalência e fatores relacionados à síndrome do intestino irritável em mulheres com dor pélvica crônica, 2026
https://www.scielo.br/j/clin/a/ncjdKyq3cTzJwCzCyfgQTTP/
3. FEBRASGO — Dor pélvica crônica pode estar ligada à endometriose, adenomiose e outras condições
https://www.febrasgo.org.br/noticia/dor-pelvica-cronica-pode-estar-ligada-a-endometriose-adenomiose-e-outras-condicoes-especialista-alerta-para-a-importancia-do-diagnostico/
4. FEBRASGO — Dor pélvica por mais de três meses? É crucial investigar
https://www.febrasgo.org.br/noticia/dor-pelvica-por-mais-de-tres-meses-e-crucial-investigar/
5. FEBRASGO — Protocolo Assistencial: Dor Pélvica Crônica
https://www.febrasgo.org.br/images/pec/Protocolos-assistenciais/Protocolos-assistenciais-ginecologia.pdf/2020-Dor-Plvica-Crnica.pdf
6. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia — Abordagem da dor pélvica crônica em mulheres
https://www.scielo.br/j/rbgo/a/fKQjFhfJ4RvdQMgbMbsJHSj/
7. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia — Síndrome do intestino irritável em mulheres com dor pélvica crônica
https://www.scielo.br/j/rbgo/a/3gPchQ7zWcWFRhFJN84X4Td/
8. Ministério da Saúde — Doenças diarreicas agudas
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/dda