Série Ciência Vital
Uma série editorial que aproxima a ciência da vida real. Partimos de pesquisas científicas para transformar descobertas em conhecimento, porque acreditamos que conhecimento nos ajuda a fazer escolhas mais conscientes. Blog com base no artigo:Sheppard JP, Palatnic L, Lakshmanan S, et al. Effects of Eicosapentaenoic Acid vs Eicosapentaenoic/Docosahexaenoic Acids on Cardiovascular Mortality: Meta-Analysis of Clinical Trials. JACC Advances. 2025;4(10 Pt 2):102149.
Existe uma frase que provavelmente você já ouviu muitas vezes: ômega-3 faz bem para o coração.
Ela não surgiu do nada. Peixes ricos em ômega-3 fazem parte de padrões alimentares associados à saúde cardiovascular, e pesquisas científicas há anos investigam os efeitos dessas gorduras.
Mas existe uma diferença importante entre dizer que o ômega-3 é um nutriente importante e afirmar que tomar um suplemento de ômega-3 protege o coração.
Quando os pesquisadores começaram a comparar diferentes estudos, a resposta ficou mais interessante — e menos simples.
Afinal, o que é o ômega-3?
Ômega-3 não é uma única substância.
Entre os principais tipos estão o EPA (ácido eicosapentaenoico) e o DHA (ácido docosa-hexaenoico), encontrados principalmente em peixes e frutos do mar. Existem também outras formas de ômega-3 presentes nos alimentos, como o ALA, encontrado em fontes vegetais.
Essa diferença é importante porque os resultados de uma pesquisa com uma determinada forma de ômega-3 não podem ser automaticamente aplicados a todos os suplementos que levam "ômega-3" no rótulo.
E é justamente aí que a história começa a ficar mais interessante.
O que os pesquisadores quiseram descobrir?
Uma meta-análise publicada em 2025 reuniu 16 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 127.771 participantes, para comparar os efeitos cardiovasculares de diferentes formas de suplementação com ômega-3.
Os pesquisadores observaram uma diferença importante: os resultados associados ao EPA não foram iguais aos observados nas formulações que combinavam EPA e DHA. Na análise, a suplementação com EPA esteve associada a uma redução da mortalidade cardiovascular, enquanto os resultados foram menos claros para as formulações combinadas.
Isso não significa que "EPA é bom e DHA é ruim".
Significa algo mais importante:
Não podemos tratar todos os produtos chamados ômega-3 como se fossem a mesma coisa.
Então o ômega-3 protege o coração?
A resposta mais honesta é: depende.
Depende de qual substância estamos falando, da dose, da formulação utilizada, do perfil da pessoa e do contexto clínico.
Alguns dos resultados mais interessantes encontrados nas pesquisas estão relacionados a formulações específicas de EPA em doses elevadas, estudadas principalmente em pessoas que já apresentavam determinados fatores de risco cardiovascular.
Isso é muito diferente de concluir que qualquer pessoa saudável deveria tomar cápsulas de óleo de peixe.
EPA e DHA são a mesma coisa?
Não.
Embora ambos sejam ácidos graxos da família ômega-3, as pesquisas indicam que eles podem apresentar efeitos diferentes sobre determinados fatores relacionados à saúde cardiovascular.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 comparou especificamente EPA e DHA e encontrou diferenças em alguns marcadores cardiovasculares.
Essa é uma das razões pelas quais olhar apenas para a palavra "ômega-3" na embalagem pode ser insuficiente para entender o que realmente está sendo estudado.
E o óleo de peixe?
Aqui existe outra confusão bastante comum.
Quando alguém fala em "tomar ômega-3", muitas vezes está falando de cápsulas de óleo de peixe. Mas um suplemento de óleo de peixe não é necessariamente equivalente às formulações utilizadas nos grandes ensaios clínicos que encontraram benefícios cardiovasculares.
A composição, a quantidade de EPA e DHA e a formulação podem ser diferentes.
Por isso, não é correto pegar o resultado de um estudo com uma formulação específica e dizer que ele comprova o mesmo benefício para qualquer produto disponível no mercado.
E existe algum risco?
Esse é um ponto que torna a história ainda mais interessante.
Uma grande meta-análise envolvendo 35 ensaios clínicos e mais de 114 mil participantes encontrou aumento do risco de fibrilação atrial em determinados grupos tratados com ácidos graxos ômega-3, especialmente em doses mais elevadas.
Isso não significa que o ômega-3 seja perigoso.
Significa que "quanto mais, melhor" não é uma regra válida para suplementação. Benefícios e possíveis riscos precisam ser avaliados considerando o tipo de produto, a dose e as características da pessoa.
Mas e quem simplesmente quer cuidar do coração?
Essa é talvez a pergunta mais importante para quem está lendo este artigo.
Se você não tem uma indicação médica específica, a pergunta não deveria ser simplesmente:
"Qual ômega-3 eu compro?"
Antes disso, vale pensar em algo mais básico:
Como está minha alimentação?
Peixes e frutos do mar podem fazer parte de uma alimentação saudável, e olhar para o conjunto da dieta costuma ser mais importante do que procurar uma cápsula capaz de compensar uma rotina alimentar pouco equilibrada.
Suplementos podem ter seu lugar em situações específicas, mas isso não significa que sejam necessários para todas as pessoas.
O que essa pesquisa muda na vida real?
Talvez a principal descoberta não seja sobre uma cápsula. É sobre como devemos interpretar a ciência.
Durante muito tempo, a mensagem sobre ômega-3 pareceu simples:
"Ômega-3 faz bem para o coração."
Mas, quando olhamos para os estudos com mais cuidado, percebemos que a pergunta correta é muito mais específica:
Qual ômega-3? Em qual dose? Para quem? Em qual situação?
Essa diferença entre uma afirmação geral e uma conclusão científica cuidadosa é enorme.
E se eu já tomo ômega-3?
Não é recomendável mudar ou interromper um tratamento prescrito com base apenas na leitura de um artigo.
Se o suplemento foi indicado por um profissional, vale conversar com ele antes de fazer qualquer alteração.
E, para quem está pensando em começar a suplementação por conta própria, a existência de pesquisas mostrando benefícios em determinados contextos não significa que o mesmo benefício esteja comprovado para todas as pessoas.
O que a ciência realmente descobriu?
Até aqui, talvez a conclusão mais interessante seja justamente aquela que parece menos definitiva.
O ômega-3 não pode ser tratado como uma única coisa.
Existem diferentes tipos, diferentes formulações, diferentes doses e diferentes grupos de pessoas estudados. Algumas pesquisas encontraram benefícios cardiovasculares importantes com formulações específicas de EPA. Outras não encontraram os mesmos resultados com combinações de EPA e DHA. E também existem evidências de possíveis riscos em determinadas situações.
Portanto, a ciência não nos entrega uma resposta simples do tipo:
"Tome ômega-3 porque faz bem para o coração."
Ela nos oferece uma resposta muito mais útil:
o benefício depende do contexto.
E entender esse contexto é justamente o que permite transformar informação científica em uma escolha mais consciente.
O que fazer com essa informação, na prática?
Você não precisa decidir sozinho se deve ou não tomar ômega-3. Mas pode usar essa pesquisa para fazer perguntas mais precisas, em vez de decisões baseadas apenas no rótulo da embalagem:
- Antes de comprar um suplemento, olhe para o conjunto da sua alimentação — peixes e frutos do mar já fazem parte da sua rotina?
- Se você já toma ômega-3 por indicação médica, não interrompa nem altere a dose sozinho — leve essa pesquisa para a próxima consulta e pergunte se ela se aplica ao seu caso.
- Se está pensando em começar a suplementação por conta própria, vale conversar com um médico ou nutricionista antes — para entender se existe uma indicação real para o seu perfil, e não apenas uma expectativa criada por marketing.
- Se for pesquisar mais sobre o assunto, procure entender qual formulação, dose e população foram estudadas — "ômega-3" sozinho, como vimos, não diz muita coisa.
Essa é a diferença entre seguir uma recomendação genérica e tomar uma decisão informada sobre a própria saúde.
Para levar desta pesquisa
Se existe uma ideia para guardar deste artigo, talvez seja esta:
Nem todo suplemento de ômega-3 é igual, e o resultado encontrado em uma pesquisa não pode ser automaticamente transferido para qualquer pessoa ou produto.
A ciência fica mais útil quando deixamos de procurar respostas fáceis e começamos a fazer perguntas melhores.
Referência científica central
Sheppard JP, Palatnic L, Lakshmanan S, et al. Effects of Eicosapentaenoic Acid vs Eicosapentaenoic/Docosahexaenoic Acids on Cardiovascular Mortality: Meta-Analysis of Clinical Trials. JACC Advances. 2025;4(10 Pt 2):102149.
Referências complementares
- Choi GY, Calder PC. The differential effects of eicosapentaenoic acid and docosahexaenoic acid on cardiovascular risk factors: an updated systematic review of randomized controlled trials. Frontiers in Nutrition. 2024.
- Effects of Omega-3 Fatty Acid Treatment on Risk for Atrial Fibrillation: An Updated Meta-Analysis of 35 Trials including 114,592 Individuals.
- Formulation-Specific Cardiovascular Outcomes with High-Dose Eicosapentaenoic Acid: A Systematic Review and Meta-analysis.