Ronco. É esse o som que costuma virar piada em casa — motivo de cutucão no ombro ou reclamação de quem dorme ao lado. Mas segundo a Associação Brasileira do Sono, esse som tão familiar pode ser o sintoma mais visível de uma condição que sobrecarrega o coração todas as noites: a apneia obstrutiva do sono. E a maior parte de quem tem o problema nem sabe.
Um problema que afeta 1 em cada 3 brasileiros
Segundo a Associação Brasileira do Sono, estima-se que 35% da população brasileira sofra de apneia do sono — mas apenas 20% dos casos são efetivamente diagnosticados. Um estudo conduzido na cidade de São Paulo encontrou prevalência de 32,8% na população geral, número que sobe ainda mais entre pessoas com obesidade e hipertensão arterial, grupos de risco já conhecidos para a condição.
O que a apneia faz ao corpo, noite após noite: a cada pausa respiratória, o organismo libera hormônios que elevam a pressão arterial — um processo que se repete dezenas ou centenas de vezes por noite, sobrecarregando o coração de forma silenciosa.
Por que o ronco é a ponta do iceberg
A apneia obstrutiva do sono acontece quando as vias aéreas superiores colapsam parcial ou totalmente durante o sono, interrompendo a respiração por dez segundos ou mais. O ronco é, na maioria das vezes, o primeiro sinal audível desse processo: conforme o fluxo de ar se torna restrito, a pessoa força a respiração através da obstrução parcial, fazendo os tecidos moles da garganta vibrarem — e é essa vibração que produz o som do ronco.
Mas o ronco é só o que se ouve. O que acontece por trás dele é bem mais sério: cada pausa respiratória gera queda nos níveis de oxigênio no sangue (hipoxemia) e ativa o sistema nervoso simpático, o mesmo sistema responsável pela resposta de "luta ou fuga" do corpo. Repetido de forma intermitente ao longo da noite, esse processo cria um ambiente de estresse fisiológico constante — mesmo que a pessoa não se lembre de ter acordado.
O elo direto com a hipertensão
Entre todas as condições associadas à apneia do sono, a hipertensão arterial tem uma das relações mais bem documentadas na literatura científica. Um estudo de coorte com quatro anos de acompanhamento encontrou que pessoas com apneia do sono no início da pesquisa tiveram risco três vezes maior de desenvolver hipertensão ao longo do período, de forma independente de outros fatores de risco — e quanto mais grave a apneia, maior esse risco.
A explicação fisiológica está relacionada à ausência do chamado "descenso noturno" da pressão arterial — em condições normais, a pressão cai durante o sono profundo, mas em pessoas com apneia grave esse descenso não acontece de forma adequada, mantendo o sistema cardiovascular sob tensão mesmo durante o descanso. Esse padrão, discutido no artigo sobre hipertensão, a assassina silenciosa, reforça como diferentes condições silenciosas podem se retroalimentar sem que a pessoa perceba.
Um estudo recente reforça o risco — e a solução
Um estudo publicado em 2025, reunindo dados de mais de 1 milhão de pessoas com apneia do sono, trouxe um retrato ainda mais claro da relação entre a condição e a saúde cardiovascular. Segundo os resultados, o uso do CPAP — aparelho que mantém as vias aéreas abertas durante o sono através de pressão positiva — reduziu em 37% o risco de morte por qualquer causa e em 55% o risco de morte por problemas cardiovasculares, como infarto e AVC, entre os usuários do tratamento.
O estudo também identificou uma relação direta entre adesão ao tratamento e benefício: quanto mais consistente o uso do CPAP, maior a proteção observada para a saúde do coração e para a sobrevivência a longo prazo — reforçando que o aparelho vai muito além do controle do ronco ou da sonolência diurna.
Outras doenças associadas à apneia não tratada
Além da hipertensão, a apneia obstrutiva do sono está associada a um conjunto amplo de comorbidades, segundo consenso da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia:
- Arritmias cardíacas, incluindo fibrilação atrial, que aumenta o risco de formação de coágulos e AVC
- Diabetes tipo 2, já que os episódios repetidos de hipóxia afetam a sensibilidade à insulina
- Insuficiência cardíaca, decorrente da sobrecarga constante imposta ao músculo cardíaco
- Declínio cognitivo, associado à fragmentação crônica do sono e à privação de oxigênio ao cérebro
- Maior risco de acidentes, tanto de trânsito quanto de trabalho, relacionados à sonolência diurna excessiva
Um estudo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia com motoristas de caminhão na cidade de São Paulo encontrou que 26% deles tinham alto risco de apneia do sono — e a maioria já havia cochilado ao volante em algum momento, ilustrando de forma concreta como a sonolência associada à condição pode representar risco não apenas para quem dorme mal, mas para terceiros também.
Sinais que vão além do ronco
Nem toda pessoa com apneia percebe as pausas respiratórias — muitas vezes é o parceiro de cama quem primeiro nota o problema. Outros sinais que podem indicar a condição incluem:
- sensação de sufocamento ou engasgo durante o sono
- sonolência excessiva durante o dia, mesmo após uma "noite completa" de sono
- dor de cabeça matinal
- necessidade frequente de urinar durante a noite (noctúria)
- dificuldade de concentração e memória
- irritabilidade e alterações de humor
Esse conjunto de sintomas guarda semelhança com o que já discutimos no artigo sobre acordar cansado mesmo dormindo 8 horas — e a apneia do sono é, justamente, uma das causas mais associadas a esse tipo de sono fragmentado e pouco restaurador.
Como é feito o diagnóstico
A confirmação da apneia do sono costuma envolver a polissonografia, exame que monitora diversos parâmetros durante o sono — como fluxo respiratório, níveis de oxigênio, atividade cerebral e frequência cardíaca. O exame pode ser realizado em laboratório de sono ou, em alguns casos, através de dispositivos portáteis para uso domiciliar. Questionários de triagem, como o STOP-BANG (que avalia ronco, cansaço, apneia presenciada, pressão arterial, índice de massa corporal, idade, circunferência do pescoço e sexo), também são usados para identificar pacientes com maior risco antes da confirmação pelo exame.
Considerações finais
O ronco costuma ser tratado com humor, mas para uma parcela significativa da população ele é o sinal mais audível de um processo que sobrecarrega o coração toda noite, de forma silenciosa e cumulativa. Com apenas 20% dos casos diagnosticados no Brasil, reconhecer os sinais da apneia do sono — e não apenas o ronco em si — pode ser o primeiro passo para proteger a saúde cardiovascular antes que ela seja comprometida de forma mais grave.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Toda pessoa que ronca tem apneia do sono?
Não. O ronco pode ocorrer sem apneia associada, especialmente em casos leves ou pontuais. Porém, ronco alto, frequente e acompanhado de pausas respiratórias observadas por outra pessoa é um forte indicativo de apneia e merece investigação.
Emagrecer resolve a apneia do sono?
Em muitos casos, a perda de peso reduz significativamente a gravidade da apneia, já que o excesso de tecido na região do pescoço contribui para o colapso das vias aéreas. Ainda assim, a apneia pode persistir mesmo após a perda de peso, dependendo de outros fatores anatômicos, sendo necessário reavaliar o quadro com um especialista.
É possível ter apneia do sono sem ser obeso?
Sim. Embora a obesidade seja um fator de risco importante, características anatômicas como retrognatia (mandíbula recuada), amígdalas aumentadas e formato da via aérea também podem causar apneia em pessoas com peso considerado normal.
Existe alternativa ao CPAP para tratar a apneia do sono?
Sim, dependendo da gravidade e da causa do problema. Aparelhos intraorais que reposicionam a mandíbula, cirurgias para correção de obstruções anatômicas específicas e, em casos leves, mudanças de posição para dormir podem ser consideradas. A escolha do tratamento mais adequado depende da avaliação individual feita por um especialista em sono.
Referências
Brasil
Associação Brasileira do Sono (Absono), via Air Liquide Brasil — dados de prevalência e diagnóstico da apneia do sono no Brasil
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) — Consenso Brasileiro em Distúrbios Respiratórios do Sono
Associação Médica Brasileira / Conselho Federal de Medicina — Projeto Diretrizes: Apneia Obstrutiva do Sono e Ronco Primário
Estados Unidos e internacional
Estudo com mais de 1 milhão de pacientes sobre uso de CPAP e mortalidade cardiovascular (2025), via ResMed Brasil
World Health Organization (WHO) — dados globais de prevalência de apneia obstrutiva do sono