O alerta que assustou médicos e pacientes
Em 2014, a FDA reuniu um comitê de segurança depois de receber relatos de AVC, infarto e morte associados ao uso de testosterona. A agência não proibiu o tratamento, mas exigiu que os fabricantes conduzissem um grande estudo clínico para responder, de uma vez por todas, se a reposição hormonal realmente aumentava o risco cardiovascular. A exigência levou quase uma década para gerar resposta.
O estudo que resolveu a dúvida
O TRAVERSE, publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, acompanhou 5.246 homens de 45 a 80 anos, todos com sintomas de deficiência de testosterona e alto risco cardiovascular — justamente o grupo que mais preocupava reguladores e médicos. O resultado: nenhum aumento no risco de infarto, AVC ou morte cardiovascular entre quem usou testosterona, comparado a quem recebeu placebo.
O que mudou na prática: em 2025, a FDA removeu da bula o alerta mais grave sobre risco cardiovascular da testosterona, mantendo apenas uma recomendação de monitoramento da pressão arterial.
A remoção do alerta não significa isenção total de cuidado — a FDA manteve a exigência de monitorar a pressão arterial durante o tratamento, já que o TRAVERSE identificou um aumento discreto nesse indicador. Mas o medo do infarto, que pairou sobre a testosterona por uma década, perdeu grande parte da base científica que o sustentava.
Antes de falar em reposição, é preciso confirmar o diagnóstico
A queda de testosterona relacionada à idade — a chamada Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM) — é um processo real e gradual, que já detalhamos no artigo sobre check-up masculino depois dos 40. Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, entre 15% e 20% dos homens acima de 50 anos apresentam sintomas clínicos de deficiência androgênica que justificariam considerar a reposição.
Entre os sintomas mais associados à queda significativa de testosterona estão fadiga persistente, redução da libido, dificuldade de concentração, alterações de humor, perda de massa muscular e força, aumento de gordura corporal e, em alguns casos, sintomas mais específicos como ondas de calor — parecidos, guardadas as diferenças hormonais, com os sintomas vividos por mulheres na menopausa.
O ponto central, reforçado tanto pela SBU quanto pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, é que o diagnóstico precisa combinar dois elementos: sintomas clínicos consistentes e exames laboratoriais confirmando níveis baixos de testosterona. Um exame alterado isolado, sem sintomas, não é suficiente — e sintomas sem confirmação laboratorial também não justificam iniciar o tratamento.
O problema do uso sem indicação médica
Enquanto o debate científico se concentrava na segurança cardiovascular, cresceu em paralelo um problema distinto: o uso de testosterona fora de contexto clínico, muitas vezes vendido como estratégia genérica de "antienvelhecimento" ou "otimização hormonal", sem diagnóstico real de deficiência.
A Sociedade Brasileira de Urologia é direta sobre esse ponto: não existem especialidades médicas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina em "reposição hormonal", "modulação hormonal" ou "antienvelhecimento" — portanto, não existem especialistas legítimos nessas áreas fora da avaliação clínica tradicional. O uso indiscriminado de testosterona, segundo a entidade, pode causar efeitos colaterais muitas vezes irreversíveis, incluindo aumento do coração, morte súbita, risco de trombose e infertilidade.
Benefícios documentados quando a indicação é correta
Quando prescrita para deficiência real e diagnosticada, a reposição de testosterona tem benefícios bem documentados na literatura científica:
- Melhora da libido e da atividade sexual. O próprio estudo TRAVERSE encontrou melhora consistente nesses aspectos entre os participantes tratados.
- Aumento de massa muscular e força. Complementa estratégias como o já discutido treino de força depois dos 40, já que a testosterona tem papel direto na síntese proteica muscular.
- Correção de anemia leve associada à deficiência hormonal. A testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos, beneficiando homens com anemia relacionada à condição.
- Melhora de humor e disposição em homens com deficiência clinicamente confirmada, embora o efeito varie entre indivíduos.
Vale notar que, apesar da melhora na libido, o TRAVERSE não encontrou melhora significativa na função erétil entre os tratados — um lembrete de que a testosterona não é solução isolada para todos os aspectos da saúde sexual masculina.
O que ainda exige cautela
Mesmo com a reavaliação mais favorável do risco cardiovascular, alguns pontos continuam exigindo acompanhamento médico rigoroso durante o tratamento:
- monitoramento da pressão arterial, conforme reforçado pela própria atualização da FDA
- acompanhamento do hematócrito (concentração de glóbulos vermelhos), já que a testosterona pode elevá-lo a níveis que aumentam o risco de trombose
- avaliação da próstata antes e durante o tratamento, com PSA e exame físico quando indicado
- contraindicação em homens com câncer de próstata ou de mama ativos
Considerações finais
A trajetória da reposição de testosterona guarda um paralelo direto com a história da reposição hormonal feminina: um alerta baseado em dados incompletos gerou anos de receio, até que um estudo robusto trouxesse mais clareza. A diferença é que, no caso masculino, o problema nunca foi apenas o medo do tratamento — foi também o oposto, o uso indiscriminado fora de contexto clínico, impulsionado por um mercado crescente de clínicas e produtos que prometem reverter o envelhecimento sem o rigor médico necessário. A ciência atual aponta para o mesmo princípio em ambos os casos: nem medo generalizado, nem uso sem critério, mas diagnóstico correto, indicação precisa e acompanhamento médico individualizado ao longo de todo o tratamento.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Qualquer homem com fadiga ou baixa libido pode fazer reposição de testosterona?
Não. Esses sintomas têm diversas causas possíveis, e a reposição só é indicada quando exames laboratoriais confirmam níveis baixos de testosterona associados aos sintomas clínicos. Tratar sintomas isolados sem essa confirmação não é uma prática recomendada pelas sociedades médicas.
A testosterona aumenta o risco de câncer de próstata?
A relação é debatida na literatura científica, mas o consenso atual não sustenta que a testosterona cause câncer de próstata em homens sem a doença. Ainda assim, ela é contraindicada em homens com câncer de próstata ativo, e o acompanhamento da próstata durante o tratamento é recomendado como precaução.
É seguro comprar testosterona sem receita médica?
Não. Além de ser ilegal, o uso sem diagnóstico e acompanhamento médico está associado a efeitos colaterais potencialmente graves e irreversíveis, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, incluindo problemas cardíacos, trombose e infertilidade.
Quanto tempo leva para sentir os efeitos da reposição de testosterona?
Varia conforme o sintoma. Melhoras na libido e no humor costumam aparecer nas primeiras semanas de tratamento, enquanto ganhos de massa muscular e força tendem a se tornar mais perceptíveis após alguns meses de uso contínuo, especialmente quando combinados a exercício físico regular.
Referências
Brasil
Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Departamento de Medicina Sexual e Reprodução — Posicionamento sobre Reposição de Testosterona
Estados Unidos e internacional
Lincoff AM, Bhasin S, et al. — Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy (Estudo TRAVERSE). The New England Journal of Medicine, 2023
U.S. Food and Drug Administration (FDA) — FDA Issues Class-Wide Labeling Changes for Testosterone Products (2025)
Androgen Society — Position Paper on Cardiovascular Risk With Testosterone Therapy. Mayo Clinic Proceedings, 2024