Saúde

O Medo do Infarto Fez Homens Evitarem a Reposição de Testosterona — Veja o Que Mudou

Infarto. Essa foi a palavra que assombrou a reposição de testosterona por mais de uma década. Em 2014, estudos observacionais associaram o tratamento a…

O Medo do Infarto Fez Homens Evitarem a Reposição de Testosterona — Veja o Que Mudou

 



Infarto. Essa foi a palavra que assombrou a reposição de testosterona por mais de uma década. Em 2014, estudos observacionais associaram o tratamento a maior risco cardiovascular, e a agência reguladora americana (FDA) exigiu um alerta grave na bula de todos os produtos. Médicos passaram a hesitar antes de prescrever, e homens com sintomas reais de deficiência hormonal muitas vezes preferiram conviver com eles a arriscar o coração. Uma década depois, o maior estudo já feito sobre o tema respondeu a essa dúvida — e a resposta mudou a bula.

O alerta que assustou médicos e pacientes

Em 2014, a FDA reuniu um comitê de segurança depois de receber relatos de AVC, infarto e morte associados ao uso de testosterona. A agência não proibiu o tratamento, mas exigiu que os fabricantes conduzissem um grande estudo clínico para responder, de uma vez por todas, se a reposição hormonal realmente aumentava o risco cardiovascular. A exigência levou quase uma década para gerar resposta.

O estudo que resolveu a dúvida

O TRAVERSE, publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, acompanhou 5.246 homens de 45 a 80 anos, todos com sintomas de deficiência de testosterona e alto risco cardiovascular — justamente o grupo que mais preocupava reguladores e médicos. O resultado: nenhum aumento no risco de infarto, AVC ou morte cardiovascular entre quem usou testosterona, comparado a quem recebeu placebo.

O que mudou na prática: em 2025, a FDA removeu da bula o alerta mais grave sobre risco cardiovascular da testosterona, mantendo apenas uma recomendação de monitoramento da pressão arterial.

A remoção do alerta não significa isenção total de cuidado — a FDA manteve a exigência de monitorar a pressão arterial durante o tratamento, já que o TRAVERSE identificou um aumento discreto nesse indicador. Mas o medo do infarto, que pairou sobre a testosterona por uma década, perdeu grande parte da base científica que o sustentava.

Antes de falar em reposição, é preciso confirmar o diagnóstico

A queda de testosterona relacionada à idade — a chamada Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM) — é um processo real e gradual, que já detalhamos no artigo sobre check-up masculino depois dos 40. Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, entre 15% e 20% dos homens acima de 50 anos apresentam sintomas clínicos de deficiência androgênica que justificariam considerar a reposição.

Entre os sintomas mais associados à queda significativa de testosterona estão fadiga persistente, redução da libido, dificuldade de concentração, alterações de humor, perda de massa muscular e força, aumento de gordura corporal e, em alguns casos, sintomas mais específicos como ondas de calor — parecidos, guardadas as diferenças hormonais, com os sintomas vividos por mulheres na menopausa.

O ponto central, reforçado tanto pela SBU quanto pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, é que o diagnóstico precisa combinar dois elementos: sintomas clínicos consistentes e exames laboratoriais confirmando níveis baixos de testosterona. Um exame alterado isolado, sem sintomas, não é suficiente — e sintomas sem confirmação laboratorial também não justificam iniciar o tratamento.

O problema do uso sem indicação médica

Enquanto o debate científico se concentrava na segurança cardiovascular, cresceu em paralelo um problema distinto: o uso de testosterona fora de contexto clínico, muitas vezes vendido como estratégia genérica de "antienvelhecimento" ou "otimização hormonal", sem diagnóstico real de deficiência.

A Sociedade Brasileira de Urologia é direta sobre esse ponto: não existem especialidades médicas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina em "reposição hormonal", "modulação hormonal" ou "antienvelhecimento" — portanto, não existem especialistas legítimos nessas áreas fora da avaliação clínica tradicional. O uso indiscriminado de testosterona, segundo a entidade, pode causar efeitos colaterais muitas vezes irreversíveis, incluindo aumento do coração, morte súbita, risco de trombose e infertilidade.

Benefícios documentados quando a indicação é correta

Quando prescrita para deficiência real e diagnosticada, a reposição de testosterona tem benefícios bem documentados na literatura científica:

  • Melhora da libido e da atividade sexual. O próprio estudo TRAVERSE encontrou melhora consistente nesses aspectos entre os participantes tratados.
  • Aumento de massa muscular e força. Complementa estratégias como o já discutido treino de força depois dos 40, já que a testosterona tem papel direto na síntese proteica muscular.
  • Correção de anemia leve associada à deficiência hormonal. A testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos, beneficiando homens com anemia relacionada à condição.
  • Melhora de humor e disposição em homens com deficiência clinicamente confirmada, embora o efeito varie entre indivíduos.

Vale notar que, apesar da melhora na libido, o TRAVERSE não encontrou melhora significativa na função erétil entre os tratados — um lembrete de que a testosterona não é solução isolada para todos os aspectos da saúde sexual masculina.

O que ainda exige cautela

Mesmo com a reavaliação mais favorável do risco cardiovascular, alguns pontos continuam exigindo acompanhamento médico rigoroso durante o tratamento:

  • monitoramento da pressão arterial, conforme reforçado pela própria atualização da FDA
  • acompanhamento do hematócrito (concentração de glóbulos vermelhos), já que a testosterona pode elevá-lo a níveis que aumentam o risco de trombose
  • avaliação da próstata antes e durante o tratamento, com PSA e exame físico quando indicado
  • contraindicação em homens com câncer de próstata ou de mama ativos

Considerações finais

A trajetória da reposição de testosterona guarda um paralelo direto com a história da reposição hormonal feminina: um alerta baseado em dados incompletos gerou anos de receio, até que um estudo robusto trouxesse mais clareza. A diferença é que, no caso masculino, o problema nunca foi apenas o medo do tratamento — foi também o oposto, o uso indiscriminado fora de contexto clínico, impulsionado por um mercado crescente de clínicas e produtos que prometem reverter o envelhecimento sem o rigor médico necessário. A ciência atual aponta para o mesmo princípio em ambos os casos: nem medo generalizado, nem uso sem critério, mas diagnóstico correto, indicação precisa e acompanhamento médico individualizado ao longo de todo o tratamento.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

Qualquer homem com fadiga ou baixa libido pode fazer reposição de testosterona?

Não. Esses sintomas têm diversas causas possíveis, e a reposição só é indicada quando exames laboratoriais confirmam níveis baixos de testosterona associados aos sintomas clínicos. Tratar sintomas isolados sem essa confirmação não é uma prática recomendada pelas sociedades médicas.

A testosterona aumenta o risco de câncer de próstata?

A relação é debatida na literatura científica, mas o consenso atual não sustenta que a testosterona cause câncer de próstata em homens sem a doença. Ainda assim, ela é contraindicada em homens com câncer de próstata ativo, e o acompanhamento da próstata durante o tratamento é recomendado como precaução.

É seguro comprar testosterona sem receita médica?

Não. Além de ser ilegal, o uso sem diagnóstico e acompanhamento médico está associado a efeitos colaterais potencialmente graves e irreversíveis, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, incluindo problemas cardíacos, trombose e infertilidade.

Quanto tempo leva para sentir os efeitos da reposição de testosterona?

Varia conforme o sintoma. Melhoras na libido e no humor costumam aparecer nas primeiras semanas de tratamento, enquanto ganhos de massa muscular e força tendem a se tornar mais perceptíveis após alguns meses de uso contínuo, especialmente quando combinados a exercício físico regular.

Referências

Brasil
Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Departamento de Medicina Sexual e Reprodução — Posicionamento sobre Reposição de Testosterona

Estados Unidos e internacional
Lincoff AM, Bhasin S, et al. — Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy (Estudo TRAVERSE). The New England Journal of Medicine, 2023
U.S. Food and Drug Administration (FDA) — FDA Issues Class-Wide Labeling Changes for Testosterone Products (2025)
Androgen Society — Position Paper on Cardiovascular Risk With Testosterone Therapy. Mayo Clinic Proceedings, 2024

Conteúdo educativo. Não substitui orientação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais de saúde.