Enjoo. Cansaço extremo. Uma dor incômoda nas costas. Foi assim que começou o infarto que matou Tammy Donin Bemquerer, 63 anos, no Rio de Janeiro, em novembro de 2025. Nenhuma dor aguda no peito, nenhum sinal "de livro didático" — só um mal-estar que parecia coisa de estômago. A filha, Ana Luiza, só entendeu depois o que aconteceu: os sintomas da mãe eram clássicos de infarto em mulheres, só que ninguém no hospital os reconheceu a tempo.
Um problema maior do que qualquer tipo de câncer
Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o infarto mata oito vezes mais mulheres no Brasil do que o câncer de mama — e as doenças cardiovasculares, de forma geral, são a principal causa de morte entre mulheres brasileiras, superando todos os tipos de câncer somados. Apesar disso, um posicionamento da própria SBC, publicado em 2025, reconhece que as doenças cardiometabólicas em mulheres seguem subdiagnosticadas e subtratadas.
O dado que resume o problema: segundo a diretora do Departamento de Cardiologia da Mulher da SBC, a mortalidade de mulheres em caso de infarto agudo do miocárdio é o dobro da registrada em homens.
Por que o coração feminino "avisa" diferente
A dor forte no peito, irradiando para o braço esquerdo, é o sintoma de infarto mais conhecido — e o mais estudado, historicamente, em homens. Mulheres frequentemente vivenciam o evento de forma bem menos óbvia: fadiga extrema, náusea, falta de ar, dor nas costas, no maxilar ou no pescoço, indisposição geral ou sintomas que lembram um simples problema gástrico.
Segundo a cardiologista Marília Higuchi, do Hospital Sírio-Libanês, grande parte dos estudos que fundamentaram o conhecimento médico sobre infarto foi conduzida com predominância de participantes homens — o que fez com que os sintomas mais sutis, mais comuns entre mulheres, fossem historicamente menos valorizados tanto na pesquisa quanto na prática clínica.
Há também uma explicação biológica para essa diferença. Antes da menopausa, o estrogênio exerce efeito protetor sobre o sistema cardiovascular — proteção que diminui após essa fase, ou em casos de menopausa precoce. Mulheres também podem apresentar alterações na microcirculação coronária, afetando pequenas artérias do coração que nem sempre aparecem com clareza em exames de imagem tradicionais, tornando o diagnóstico ainda mais desafiador.
Um atraso que custa vidas
Segundo o relatório Heart Disease and Stroke Statistics 2024, da American Heart Association, mulheres têm 50% mais chances de receber um diagnóstico inicial errado após um ataque cardíaco, em comparação a homens. Esse erro inicial, somado à demora em procurar atendimento — muitas vezes porque a própria mulher atribui os sintomas a estresse, ansiedade ou cansaço do dia a dia —, resulta em um tempo maior de isquemia (falta de oxigênio no músculo cardíaco), que é um dos fatores diretamente associados à maior mortalidade.
Um estudo conduzido pela PUC do Paraná, publicado em 2025 nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, acompanhou cerca de 5.000 pacientes internados por infarto no SUS em Curitiba entre 2008 e 2015. O achado: mulheres entre 45 e 55 anos apresentam risco de morte pós-infarto significativamente maior do que homens da mesma faixa etária — mesmo tendo, em geral, menos fatores de risco clássicos previamente diagnosticados. Segundo José Rocha Faria Neto, cardiologista e um dos autores do estudo, esse padrão é documentado há pelo menos duas décadas, com explicações tanto biológicas quanto de formação médica insuficiente sobre o tema.
Fatores sociais também pesam
Além da diferença biológica de sintomas, especialistas apontam um componente comportamental relevante: a rotina de dupla jornada, a sobrecarga emocional e o hábito de priorizar o cuidado com os outros levam muitas mulheres a minimizar os próprios sintomas, atribuindo o mal-estar ao estresse cotidiano antes de considerar a possibilidade de um problema cardíaco. Esse padrão, discutido por especialistas do Senado Federal em maio de 2025, reforça a importância de levar a sério qualquer alteração incomum no próprio corpo, mesmo quando parece "só cansaço".
Sinais de alerta que merecem atenção
Diante desse cenário, conhecer os sintomas menos óbvios de infarto pode ser decisivo. Vale buscar atendimento de emergência diante de:
- fadiga extrema e repentina, sem explicação aparente
- falta de ar, mesmo em repouso ou com esforço leve
- náusea, indigestão ou desconforto gástrico persistente
- dor nas costas, no pescoço ou no maxilar, sem causa óbvia
- suor frio associado a qualquer um dos sintomas anteriores
- sensação geral de mal-estar ou "algo errado" no corpo
Nenhum desses sintomas, isoladamente, significa necessariamente um infarto — mas a combinação deles, especialmente de forma súbita, é motivo suficiente para buscar avaliação médica de emergência, sem esperar para ver se "passa sozinho".
O que mudar na prevenção e no diagnóstico
A SBC já reconhece a necessidade de adaptar protocolos de atendimento e formação médica, já que ferramentas diagnósticas construídas majoritariamente a partir de padrões masculinos contribuem para a subnotificação de risco em mulheres. Do lado da prevenção individual, alguns cuidados seguem centrais — como o acompanhamento regular da pressão arterial, tema que já detalhamos no artigo sobre hipertensão, a assassina silenciosa, já que a hipertensão é um dos principais fatores de risco cardiovascular tanto em homens quanto em mulheres.
Manter os exames de rotina em dia, especialmente após os 40 anos e na transição para a menopausa — período em que o risco cardiovascular aumenta de forma mais expressiva —, também é parte central da prevenção, junto ao controle de fatores como colesterol, diabetes e tabagismo.
Considerações finais
O infarto na mulher não é mais raro do que no homem — é mais silencioso, mais mal interpretado, e por isso mais mortal quando não reconhecido a tempo. Entender que o coração feminino pode "avisar" de formas menos óbvias do que a dor clássica no peito é um passo essencial tanto para quem sente os sintomas quanto para quem atende — e pode ser, literalmente, a diferença entre buscar ajuda a tempo ou minimizar um sinal que exigia atenção imediata.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o acompanhamento de um profissional de saúde. Em caso de sintomas sugestivos de infarto, procure atendimento de emergência imediatamente.
Perguntas frequentes
Mulheres mais jovens também podem ter infarto?
Sim. Embora o risco aumente com a idade, especialmente após a menopausa, fatores como tabagismo, uso combinado de estimulantes e cigarros eletrônicos, histórico familiar e condições como hipertensão e diabetes podem elevar o risco em mulheres mais jovens também.
Por que os sintomas de infarto em mulheres são confundidos com ansiedade?
Porque sintomas como falta de ar, sudorese e mal-estar geral também são comuns em crises de ansiedade, o que pode levar tanto a paciente quanto profissionais de saúde a minimizar a possibilidade de um evento cardíaco antes de investigar mais a fundo.
A menopausa aumenta diretamente o risco de infarto?
A menopausa não causa infarto diretamente, mas a queda do estrogênio reduz um efeito protetor que esse hormônio exercia sobre o sistema cardiovascular, o que contribui para o aumento do risco cardiovascular geral observado nessa fase da vida.
O que fazer se eu suspeitar que estou tendo um infarto?
Procure atendimento de emergência imediatamente, mesmo diante de sintomas que pareçam "leves demais" para serem cardíacos. Não dirija até o hospital — chame uma ambulância ou peça para alguém te levar, já que o tempo até o atendimento tem impacto direto nas chances de recuperação sem sequelas.
Referências
Brasil
Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Departamento de Cardiologia da Mulher — via Senado Notícias, "Especialistas alertam sobre riscos das doenças cardiovasculares em mulheres" (2025)
Faria Neto JR, et al. — Estudo com pacientes de infarto no SUS em Curitiba (2008-2015). Arquivos Brasileiros de Cardiologia (2025)
Estados Unidos
American Heart Association (AHA) — Heart Disease and Stroke Statistics 2024 Update