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Celular antes de dormir: o que a ciência diz sobre o seu sono

Série Ciência Vital Uma série editorial que aproxima a ciência da vida real. Partimos de pesquisas científicas para transformar descobertas em conhecimento,…

Celular antes de dormir: o que a ciência diz sobre o seu sono

 


Série Ciência Vital

Uma série editorial que aproxima a ciência da vida real. Partimos de pesquisas científicas para transformar descobertas em conhecimento, porque acreditamos que conhecimento nos ajuda a fazer escolhas mais conscientes. Blog com base no artigo: Electronic Screen Use and Sleep Duration and Timing in Adults. JAMA Network Open, 2025.


Você coloca a cabeça no travesseiro, pega o celular para olhar "só uma coisa" e, quando percebe, já passou muito mais tempo do que pretendia. No dia seguinte, acorda cansado, mesmo tendo dormido "o suficiente".

Será que uma coisa tem relação com a outra?

Você dorme, mas sente que não descansa?

Tem gente que dorme oito horas e ainda assim acorda com a sensação de que não descansou direito. Outros dormem menos, mas acordam bem.

Essa diferença intriga bastante gente — e uma das primeiras suspeitas, quase sempre, recai sobre o celular. Afinal, ele costuma ser a última coisa que a maioria das pessoas olha antes de fechar os olhos.

Será que o celular tem alguma coisa a ver com isso?

É uma pergunta simples, mas que não tem uma resposta óbvia. Existe muita opinião sobre o assunto, mas poucas vezes essa pergunta é respondida a partir de uma pesquisa com dados robustos.

Foi exatamente isso que um estudo publicado em 2025 tentou investigar.

O que uma pesquisa com mais de 120 mil adultos descobriu?

O estudo Electronic Screen Use and Sleep Duration and Timing in Adults, publicado na revista científica JAMA Network Open, analisou o comportamento de 122.058 adultos, com participantes de 35 estados dos Estados Unidos e de Porto Rico.

A ideia central da pesquisa foi observar algo bem específico: o que acontece com o sono das pessoas que usam telas na hora anterior a dormir, em comparação com quem não usa.

Um número de participantes dessa magnitude dá ao estudo um peso que pesquisas menores simplesmente não têm. Não se trata de uma opinião isolada nem de uma observação sobre um pequeno grupo — é um retrato de como uma parte considerável da população se comporta antes de dormir, e do que isso parece estar associado.

O que o estudo encontrou?

Os pesquisadores encontraram uma associação entre usar telas na hora anterior ao sono e uma maior prevalência de sono classificado como de pior qualidade.

Além disso, o uso de telas nesse período também apareceu associado a diferenças na duração e no horário do sono das pessoas.

Ou seja: não é apenas uma questão de "dormir menos". O estudo aponta que o hábito de usar telas antes de dormir está relacionado tanto a quanto tempo a pessoa dorme quanto a quando ela efetivamente dorme — e a como ela avalia a qualidade desse sono.

O problema pode não ser apenas a luz da tela

É tentador resumir tudo isso numa frase simples: "a luz do celular atrapalha o sono". Mas os próprios dados sugerem que a história pode ser um pouco mais ampla do que isso.

Quando alguém está com o celular na mão pouco antes de dormir, várias coisas acontecem ao mesmo tempo: a exposição à luz da tela, sim, mas também o tipo de conteúdo consumido, o estímulo mental de continuar rolando a tela, e o simples fato de que o tempo que seria de sono está sendo ocupado por outra coisa.

O estudo mostra a associação entre uso de telas e pior qualidade de sono — não isola exatamente qual desses fatores pesa mais. E é justamente por isso que vale olhar para o hábito como um todo, e não só para o brilho da tela.

Quando o celular entra na cama, o que acontece?

Pense na cena mais comum: a pessoa se deita, pega o celular "por cinco minutinhos" e esse tempo se estica. Uma notificação puxa outra. Um vídeo leva a outro. Sem perceber, o horário em que a pessoa realmente fecha os olhos foi empurrado para mais tarde.

É exatamente esse tipo de padrão — uso de tela próximo ao momento de dormir — que o estudo relacionou a um sono de pior qualidade e a mudanças na duração e no horário do descanso.

Não é sobre um único dia. É sobre um hábito que se repete noite após noite.

Você precisa abandonar o celular à noite?

O estudo não sugere que seja necessário eliminar completamente o uso de telas à noite, e esse também não é o ponto principal a se levar dessa pesquisa.

O que os dados mostram é uma associação: pessoas que usam telas na hora anterior a dormir apresentam, com mais frequência, características de sono pior. Isso é diferente de dizer que o celular é, sozinho, a causa de todo problema de sono que alguém possa ter.

Ainda assim, é uma informação relevante. Se você percebe que dorme mal e também percebe que o celular costuma estar com você até o último minuto antes de fechar os olhos, essa pesquisa dá um motivo concreto para observar esse hábito com mais atenção.

O que você pode experimentar hoje à noite?

Algumas mudanças pequenas podem ajudar a testar, na prática, se esse hábito está de fato relacionado ao seu próprio sono:

  • Definir um horário para "guardar" o celular, mesmo que seja apenas 15 ou 20 minutos antes de deitar.
  • Deixar o celular fora de alcance da cama, para que pegá-lo exija um esforço extra.
  • Observar como você se sente ao acordar em noites em que usou o celular até tarde e em noites em que não usou.
  • Substituir os últimos minutos antes de dormir por alguma atividade que não envolva tela.

Nenhuma dessas mudanças precisa ser definitiva. A ideia é observar, na sua própria rotina, se existe alguma diferença perceptível.

E se você continuar dormindo mal?

Vale um cuidado importante aqui: nem todo problema de sono está relacionado ao uso do celular.

Se você já reduziu o uso de telas à noite e continua dormindo mal, acordando cansado com frequência ou tendo dificuldade persistente para dormir, esse é um sinal de que vale conversar com um profissional de saúde. Existem diversas causas possíveis para um sono ruim, e o celular é apenas um dos fatores que uma pesquisa recente conseguiu associar ao problema — não o único responsável possível.

Conclusão: talvez o problema não seja apenas o celular

A pergunta que abriu este artigo continua válida: será que o celular que você usa todas as noites tem alguma coisa a ver com você dormir mal?

Segundo essa pesquisa com mais de 120 mil adultos, a resposta parece ser: possivelmente, sim — mas não é necessariamente a única explicação.

O que os dados mostram é uma associação consistente entre usar telas na hora anterior ao sono e ter um descanso de pior qualidade, com duração e horário também diferentes. Isso não significa que o celular seja o vilão absoluto do sono de todo mundo, mas é uma pista concreta o suficiente para valer a pena observar o próprio hábito antes de apagar a luz.



Referência

Electronic Screen Use and Sleep Duration and Timing in Adults. JAMA Network Open, 2025. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40146105


Conteúdo educativo. Não substitui orientação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais de saúde.