Nutrição

Celular à mesa: o que um estudo brasileiro encontrou sobre telas e ultraprocessados entre adolescentes

Estudo com 123 mil adolescentes brasileiros encontrou associação entre uso de telas nas refeições e maior consumo de ultraprocessados. Entenda o que isso significa --- e o que não prova.

Celular à mesa: o que um estudo brasileiro encontrou     sobre telas e ultraprocessados entre adolescentes

Olhar o celular enquanto come parece um hábito pequeno, mas ele pode fazer parte de um contexto alimentar mais amplo. Um estudo brasileiro publicado em setembro de 2026 encontrou uma associação consistente entre o uso de telas durante as refeições e o consumo elevado de alimentos ultraprocessados entre adolescentes.

Isso não significa que o celular, sozinho, faça alguém comer pior. O estudo observou comportamentos em um mesmo período e não consegue provar causa e efeito. Ainda assim, o tamanho da amostra e a abrangência nacional tornam o resultado relevante para entender como alimentação e vida digital podem se cruzar na adolescência.

Em resumo: entre adolescentes brasileiros avaliados pela PeNSE 2019, usar TV, computador ou celular com maior frequência durante as refeições esteve associado a maior prevalência de consumo elevado de ultraprocessados. A pesquisa mostra uma relação entre os comportamentos, mas não prova que um cause o outro.

O que o estudo brasileiro investigou?

Pesquisadores analisaram dados de 123.761 adolescentes de 13 a 17 anos que participaram da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019. O trabalho foi publicado na Revista de Saúde Pública em 2026.

A equipe avaliou dois comportamentos relacionados às telas: o tempo diário assistindo à televisão e a frequência com que os adolescentes usavam mídias durante as refeições. Nessa segunda medida, TV, computador e celular foram agrupados; portanto, os resultados não permitem dizer qual aparelho, isoladamente, esteve mais associado ao consumo alimentar.

Para estimar o consumo de ultraprocessados, os pesquisadores usaram um escore baseado em 13 subgrupos consumidos no dia anterior à pesquisa. O consumo elevado foi definido como sete ou mais desses subgrupos, faixa que correspondia aproximadamente ao quintil superior da distribuição.

O que os pesquisadores encontraram?

Na amostra, 50,84% dos adolescentes relataram usar mídias durante as refeições todos os dias. Entre os que não usavam mídia nas refeições, 11,94% estavam na faixa de alto consumo de ultraprocessados; entre os que usavam telas em todas as refeições, a prevalência foi de 18,87%.

Depois de ajustes para características como idade, sexo, raça/cor autorreferida, região, área urbana ou rural, tipo de escola e índice de riqueza, os adolescentes que usavam mídia todos os dias durante as refeições apresentaram prevalência 55% maior de alto consumo de ultraprocessados em comparação com aqueles que não usavam mídia nesses momentos.

Também apareceu uma relação gradual: quanto maior a frequência de uso de mídia durante as refeições, maior foi a prevalência do desfecho analisado. O estudo encontrou padrão semelhante para o tempo assistindo à televisão.

Isso quer dizer que o celular faz o adolescente comer mais ultraprocessados?

Não. Essa é justamente a principal cautela para interpretar o trabalho.

O estudo é transversal: exposição às telas e alimentação foram avaliadas a partir dos dados da mesma pesquisa. Assim, ele consegue identificar associação, mas não estabelecer a sequência dos acontecimentos nem demonstrar que o uso de telas causou o maior consumo de ultraprocessados.

Além disso, as informações foram autorrelatadas, o que pode introduzir erros de memória ou respostas influenciadas pelo que o participante considera socialmente desejável. O método também não mediu a quantidade de ultraprocessados ingerida nem o padrão alimentar habitual: registrou subgrupos consumidos no dia anterior.

Há ainda outro detalhe importante: TV, computador e celular foram agrupados na pergunta sobre mídia durante as refeições. Por isso, embora o celular seja um exemplo muito presente no cotidiano, não é correto atribuir especificamente a ele todo o resultado observado.

Por que tela e alimentação podem aparecer juntas?

Os autores discutem algumas explicações possíveis, sem tratá-las como mecanismos definitivamente comprovados pelo estudo. Uma delas é a distração: quando a atenção está dividida entre a comida e o conteúdo da tela, sinais ligados à experiência da refeição podem receber menos atenção.

Outra possibilidade é o ambiente digital de publicidade de alimentos. Redes sociais, vídeos e outros conteúdos podem expor adolescentes ao marketing de produtos ultraprocessados. Há também uma questão prática: alimentos prontos para consumo podem ser convenientes quando a pessoa está concentrada em uma tela.

Essas hipóteses ajudam a entender por que os comportamentos podem caminhar juntos, mas não permitem concluir que exista uma única explicação para a associação encontrada.

Então a família precisa proibir o celular na mesa?

O resultado não precisa virar uma disputa doméstica. Há uma diferença entre estabelecer um momento de refeição com menos distrações e transformar o celular em culpado por toda escolha alimentar.

O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda comer com atenção, sem se envolver em outra atividade, em ambientes apropriados e, sempre que possível, em companhia. Essas orientações são anteriores ao estudo de 2026 e fazem parte de uma visão mais ampla sobre o ato de comer.

Na prática, algumas mudanças podem ser testadas sem transformar a refeição em uma lista de proibições:

  • combinar momentos ou refeições em que todos, inclusive os adultos, deixam as telas de lado;
  • evitar que apenas o adolescente seja cobrado se os demais continuam usando o celular à mesa;
  • deixar alimentos e utensílios organizados antes de sentar, reduzindo interrupções;
  • usar a refeição como oportunidade de conversar e perceber melhor fome, saciedade, sabor e ritmo de comer;
  • observar o conjunto da alimentação, em vez de avaliar a saúde por uma refeição isolada.

Ultraprocessado não é sinônimo de qualquer alimento industrializado

No estudo, a classificação dos alimentos segue a lógica da classificação Nova, usada também pelo Guia Alimentar brasileiro. Alimentos ultraprocessados são formulações industriais que costumam reunir ingredientes e aditivos característicos desse tipo de produto. A categoria não deve ser confundida automaticamente com tudo o que vem em embalagem.

Para a rotina familiar, a orientação do Guia Alimentar é fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação e evitar ultraprocessados. Para entender como levar esses princípios ao cotidiano sem transformar cada refeição em um teste de perfeição, veja também Comer bem não precisa ser complicado: o guia definitivo para uma alimentação saudável no dia a dia.

Planejamento, disponibilidade de alimentos, tempo, renda e ambiente também influenciam o que chega à mesa. Por isso, olhar para o contexto da alimentação costuma ser mais útil do que avaliar uma escolha isoladamente.

O que esse estudo acrescenta?

O principal valor do trabalho é mostrar a associação em uma amostra muito grande e de abrangência nacional, incluindo estudantes de escolas públicas e privadas, de áreas urbanas e rurais. Ele também chama atenção para o momento da refeição, e não apenas para o total de horas diante de uma tela.

Ao mesmo tempo, os dados são da PeNSE de 2019. O artigo foi publicado em 2026, mas isso não significa que os hábitos medidos sejam um retrato de 2026. Mudanças no uso de redes sociais, dispositivos e rotina familiar ocorridas desde então podem alterar o cenário atual.

A mensagem mais útil, portanto, não é “celular à mesa causa alimentação ruim”. É mais cuidadosa: telas durante as refeições e consumo elevado de ultraprocessados apareceram associados entre adolescentes brasileiros, e criar refeições com mais atenção e menos distrações é coerente com as orientações alimentares oficiais do país.

Referências

  • Andrade MEC, Vale D, Palmeira PA. Uso de telas e consumo de alimentos ultraprocessados por adolescentes brasileiros. Revista de Saúde Pública. 2026;60:e42.
  • Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª edição.

Conteúdo educativo. Não substitui orientação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais de saúde.