A Anvisa aprovou, em 4 de novembro de 2026, o registro do Wegovy (semaglutida) em comprimidos para o tratamento da obesidade e do sobrepeso com determinadas condições associadas. A novidade oferece uma alternativa à aplicação injetável, mas não significa que o medicamento já esteja disponível nas farmácias.
Enquanto essa aprovação amplia as opções de tratamento regulamentadas, outra notícia merece atenção: em setembro, a agência proibiu a importação, a venda e o uso da caneta T36, um produto identificado como tirzepatida e sem registro sanitário no Brasil. As duas decisões mostram por que é importante diferenciar um medicamento avaliado pela Anvisa de um produto cuja qualidade, segurança e eficácia não foram avaliadas pela agência.
O que a Anvisa aprovou em novembro
A aprovação de 4 de novembro autorizou a apresentação oral do Wegovy, medicamento à base de semaglutida. Até então, a apresentação de Wegovy disponível no Brasil era injetável. A nova versão é o primeiro medicamento da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 em comprimidos aprovado no país para o tratamento da obesidade.
A indicação é para adultos com obesidade, definida por índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m², ou com sobrepeso, quando o IMC é igual ou superior a 27 kg/m² e existe pelo menos uma condição de saúde relacionada ao peso. O tratamento deve ser associado a uma alimentação com redução de calorias e à prática de atividade física.
Isso não significa que o comprimido seja indicado para qualquer pessoa que queira perder alguns quilos. A escolha de um medicamento depende da avaliação clínica, do histórico de saúde e dos critérios aprovados para seu uso.
Como o comprimido deve ser tomado
De acordo com as informações divulgadas pela Anvisa, a apresentação oral prevê uso diário, com aumento gradual da dose. O esquema começa em 1,5 mg, passa por 4 mg e 9 mg e chega à dose de manutenção de 25 mg por dia.
O comprimido deve ser tomado em jejum, com uma pequena quantidade de água. Depois da administração, é necessário esperar pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou tomar outros medicamentos. Essas orientações fazem parte do modo de uso aprovado e devem ser conferidas na bula da apresentação prescrita.
A agência também informa que a transição entre as apresentações oral e injetável pode ser considerada quando houver indicação clínica, seguindo as orientações da bula. Isso não significa que o paciente possa trocar uma forma pela outra por conta própria.
O que mostrou o estudo OASIS 4
A aprovação teve como principal base o estudo clínico OASIS 4, publicado no New England Journal of Medicine em 2025. O ensaio avaliou a semaglutida oral de 25 mg em adultos com sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, em conjunto com intervenções relacionadas ao estilo de vida.
Foram 307 participantes: 205 receberam semaglutida e 102 receberam placebo. O estudo durou 71 semanas, e a avaliação principal da mudança de peso foi feita na semana 64.
Na análise principal, a redução média estimada do peso corporal foi de 13,6% no grupo que recebeu semaglutida, contra 2,2% no grupo placebo. Esses resultados representam médias de um ensaio clínico, não uma previsão do que acontecerá com cada pessoa.
O estudo foi financiado pela fabricante, a Novo Nordisk. Esse dado não invalida automaticamente os resultados, mas é importante para que o leitor conheça a origem do financiamento e interprete as evidências com senso crítico.
Também houve maior frequência de eventos adversos gastrointestinais entre os participantes que receberam semaglutida: 74% contra 42,2% no grupo placebo. Por isso, a possibilidade de usar um comprimido em vez de uma injeção não significa ausência de efeitos adversos ou de necessidade de acompanhamento.
O comprimido já está à venda?
A aprovação do registro não significa disponibilidade imediata nas farmácias. No comunicado de 4 de novembro, a Anvisa não informou preço nem uma data confirmada de chegada ao mercado brasileiro.
Até que haja informações comerciais oficiais, desconfie de anúncios que prometam entrega imediata, pré-venda ou acesso antecipado ao produto. A existência de uma aprovação regulatória não confirma a autenticidade de ofertas feitas por vendedores desconhecidos.
Por que a Anvisa proibiu a caneta T36
Em 16 de setembro de 2026, a Anvisa proibiu a importação, o armazenamento, a distribuição, a comercialização, a propaganda, o transporte e o uso da caneta T36, identificada como um produto à base de tirzepatida.
A medida foi estabelecida pela Resolução-RE nº 3.626/2026. Segundo a agência, a T36 não possui registro sanitário no Brasil e sua segurança e eficácia não foram avaliadas pela Anvisa. A resolução se aplica a pessoas físicas, empresas e veículos de comunicação.
O produto foi descrito em reportagens como uma caneta paraguaia. A origem atribuída ao produto, porém, não substitui a avaliação sanitária exigida para medicamentos comercializados no Brasil.
Tirzepatida não é sinônimo de T36
A tirzepatida é o princípio ativo do Mounjaro, medicamento que possui registro no Brasil para indicações específicas. Isso não torna a T36 equivalente ao Mounjaro.
Dois produtos que declaram conter a mesma substância podem ser diferentes em formulação, fabricação, concentração, controle de qualidade, conservação e rastreabilidade. Não é possível presumir que tenham a mesma segurança ou eficácia apenas pela informação impressa no rótulo.
É importante separar as duas questões: a proibição da Anvisa se refere à T36, e não significa que a substância tirzepatida tenha sido proibida no Brasil. Medicamentos com registro sanitário seguem as condições e indicações aprovadas para cada produto.
O que o registro sanitário protege
O registro sanitário não é apenas uma formalidade. Ele faz parte de um sistema de controle que envolve avaliação de qualidade, segurança e eficácia, além de exigências sobre fabricação, armazenamento e rastreabilidade. Sem registro, o produto fica fora desse processo de avaliação e fiscalização da Anvisa.
Em resumo: ter o mesmo princípio ativo declarado no rótulo não torna dois produtos equivalentes. O registro sanitário é parte fundamental da avaliação e do controle de medicamentos no Brasil.
A agência alerta que produtos adquiridos fora dos canais regulares de farmácias e drogarias não têm garantia de procedência, composição ou conservação. Isso pode comprometer a qualidade, a segurança e a eficácia do medicamento.
Há ainda uma dificuldade prática: medicamentos usados no tratamento da obesidade podem provocar efeitos adversos mesmo quando são regularizados e utilizados corretamente. Se a composição ou a dose de um produto é desconhecida, fica mais difícil avaliar o que está causando um sintoma e oferecer a assistência adequada.
A obesidade é uma doença crônica e multifatorial. Seu tratamento pode envolver mudanças de hábitos, acompanhamento de diferentes profissionais de saúde e, em algumas situações, medicamentos. O cuidado precisa considerar as condições clínicas e as necessidades de cada pessoa, sem atalhos ou soluções anunciadas como universais.
Como reconhecer situações de risco
Algumas situações comuns merecem atenção antes de comprar ou usar uma caneta emagrecedora:
- Anúncio com preço muito baixo: ofertas em redes sociais ou aplicativos de mensagem, especialmente quando prometem entrega de produtos importados sem documentação clara, exigem cautela.
- Produto trazido por conhecidos: a boa intenção de quem oferece uma caneta não comprova sua procedência, conservação ou autenticidade. Não compre, divida ou utilize medicamentos sem orientação profissional.
- Promessa de acesso antecipado ao Wegovy oral: a aprovação do registro não confirma que o produto já esteja disponível para venda. Consulte os canais oficiais antes de confiar em uma oferta.
- Venda fora de farmácias regularizadas: a Anvisa informa que a comercialização de medicamentos deve ocorrer em farmácias e drogarias regularizadas, por meio de lojas físicas ou canais digitais oficiais.
Como comprar medicamentos com mais segurança
- Compre medicamentos em farmácias e drogarias regularizadas, presencialmente ou por seus canais digitais oficiais.
- Confira se o produto possui registro sanitário na consulta de medicamentos da Anvisa.
- Desconfie de ofertas com preços muito abaixo dos praticados em estabelecimentos regulares.
- Não compre medicamentos de vendedores desconhecidos em redes sociais ou aplicativos de mensagem.
- Não inicie, interrompa ou troque um tratamento por indicação de influenciadores, amigos ou anúncios.
- Converse com um profissional de saúde sobre a indicação, os possíveis efeitos adversos e o acompanhamento necessário.
Perguntas frequentes
O Wegovy em comprimido já está à venda no Brasil?
A Anvisa aprovou o registro em 4 de novembro de 2026, mas não informou, no comunicado da aprovação, uma data confirmada de chegada às farmácias nem o preço. A disponibilidade depende dos próximos passos comerciais.
A tirzepatida foi proibida no Brasil?
Não. A proibição publicada em setembro se refere à caneta T36, que não possui registro sanitário no Brasil. A tirzepatida é o princípio ativo de medicamentos regularizados para indicações específicas, como o Mounjaro. A situação de cada produto deve ser conferida individualmente.
O comprimido de 25 mg é mais forte do que a caneta?
Não é possível comparar a potência das apresentações apenas pelo número de miligramas. O comprimido e a formulação injetável têm esquemas de dose e características de absorção diferentes. Não substitua uma apresentação pela outra nem faça conversões por conta própria.
Posso usar o Wegovy em comprimido sem acompanhamento?
Não. É um medicamento com indicação específica, que exige avaliação profissional, prescrição quando aplicável e acompanhamento durante o tratamento.
Já comprei uma caneta T36. O que devo fazer?
Não utilize novas doses do produto. Procure orientação de um profissional de saúde e leve a embalagem ou as informações disponíveis sobre a compra. Informe quando e quanto utilizou, sem tentar ajustar ou substituir o tratamento por conta própria.
O que muda para quem quer tratar a obesidade
A aprovação do Wegovy em comprimidos amplia as opções regulamentadas de tratamento, mas não representa uma solução adequada para todas as pessoas nem elimina a necessidade de acompanhamento. Os resultados do estudo OASIS 4 são relevantes, mas não garantem a mesma perda de peso para cada paciente.
Já a proibição da T36 mostra que a presença de uma substância conhecida no rótulo não é suficiente para comprovar a segurança de um produto. A avaliação sanitária considera o medicamento como um todo, e não apenas o nome de seu princípio ativo.
Se você considera iniciar um tratamento para obesidade, converse com um profissional de saúde sobre as opções disponíveis e regularizadas. Antes de comprar, confira o registro e a procedência do medicamento. Uma escolha segura começa com informação confiável, avaliação individual e acompanhamento adequado.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Indicações, orientações de uso e disponibilidade de medicamentos podem ser atualizadas pelas autoridades sanitárias.
Referências
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa aprova primeiro medicamento de GLP-1 oral para obesidade. 4 nov. 2026.
- WHARTON, S. et al. Oral Semaglutide at a Dose of 25 mg in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicine, 2025; 393(11): 1077–1087. DOI: 10.1056/NEJMoa2500969.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa proíbe caneta emagrecedora T36. 16 set. 2026.
- Anvisa. Resolução-RE nº 3.626, de 14 de setembro de 2026. Publicada no Diário Oficial da União em 16 set. 2026.